Observe o ponto uma vez mais. É aqui. É a nossa casa. Somos nós. Nele vivem ou viveram todas as pessoas que ama, todas as pessoas que conhece, todas as pessoas de que ouviu falar, todos os seres humanos que alguma vez existiram.
A conjunção da nossa alegria e do nosso sofrimento, milhares de religiões confiantes, ideologias e doutrinas económicas, todos os caçadores e recolectores, todos os heróis e cobardes, todos os criadores e destruidores da civilização, todos os reis e camponeses, todos os jovens casais apaixonados, todas as mães e pais, crianças esperançadas, inventores e exploradores, todos os professores de moral, todos os políticos corruptos, todas as «superestrelas», todos os «líderes supremos», todos os santos e pecadores da história da nossa espécie viveram lá – numa partícula de poeira suspensa num raio solar.
Carl Sagan, O Ponto Azul-Claro
Quando a sonda Voyager 1 (lançada há quase 30 anos) se encontrava a 6,4 biliões de quilómetros de distância, recebeu uma mensagem urgente proveniente da Terra. Por sugestão de Carl Sagan, cientistas do Jet Propulsion Laboratory, da NASA, mandaram a sonda voltar as suas câmaras em direcção aos planetas distantes do Sistema Solar. Foram tiradas 60 fotografias – esta é a da Terra, o nosso frágil e insignificante planeta azul.
Carl Sagan morreu a 20 de Dezembro de 1996, aos 62 anos. O cientista, astrónomo, escritor e divulgador científico não resistiu a uma pneumonia, mas o verdadeiro responsável pelo seu derradeiro enfraquecimento possui uma designação mais complicada nos livros médicos: mieolodisplasia, uma doença muito rara da medula óssea.
É ainda considerado – 10 anos depois da sua morte – o maior divulgador da ciência que o mundo já conheceu. Nenhum astrónomo possuía a mesma eloquência na escrita, o mesmo à-vontade diante das câmaras de televisão e a capacidade em comunicar as descobertas e aspirações da Ciência. Foi um homem inspirador porque era cientista e romântico, astrónomo e sonhador – e qualquer destas características aparentemente opostas não anulava a outra. Pelo contrário, saíam todas reforçadas.
Foi Sagan quem se lembrou de apontar as câmaras da Voyager 1 para a Terra: «Parecia-me que uma fotografia tirada de um ponto (…) tão distante poderia contribuir para o processo continuado de revelarmos a nós próprios a nossa verdadeira circunstância e condição», explicou ele no livro O Ponto Azul-Claro, escrito dois anos de morrer.
Foi também Sagan quem teve a ideia de juntar à missão Pioneer (duas sondas, a Pioneer 10 e 11, lançadas em 1973) uma placa gravada com símbolos compreensíveis para uma civilização extraterrestre. A placa foi projectada por Sagan e o colega e amigo Frank Drake, e desenhada por Linda Salzman.
A chave para se decifrar a placa consiste em entender o esgotamento do elemento mais comum no universo: o hidrogénio. Este elemento vem ilustrado na parte esquerda da placa de forma esquemática, mostrando a transição superfina do hidrogénio atómico neutro. Qualquer alienígena com suficiente conhecimento científico deve ser capaz de interpretar a mensagem. Igualmente se indica a posição da Terra no nosso Sistema Solar. Fonte: Astronomia Digital

A PLACA DA DISCÓRDIA A mensagem para os extraterrestres deixou a América conservadora de 1973 em polvorosa. Os jornais publicaram imediatamente o desenho, mas não contavam com os protestos de quem não concordava em mandar para o Espaço ilustrações de um homem e uma mulher nus.
A imagem chegou a ser retocada no Chicago Sun-Times para que os orgãos sexuais desaparecessem. O editor do Los Angeles Times recebeu cartas de leitores indignados com a NASA, acusando-a de desperdiçar o dinheiro dos contribuintes com «obscenidades». Também havia cartas de feministas ofendidas com o facto de a mulher da placa parecer estar subordinada ao homem: «A mulher parece estar atrás dele. E porque razão é o homem quem faz a saudação?» Outros protestos tinham a ver com o facto de as figuras humanas representarem demasiado uma única raça – e entre os queixosos encontravam-se pessoas de todas as raças.
Sagan comentou o folclore que a placa provocou nos Estados Unidos: «O envio dessa mensagem obriga-nos a considerar como desejamos estar representados no plano cósmico. Qual é a imagem da Humanidade que queremos apresentar a uma civilização superior situada em qualquer ponto da Galáxia? A transmissão da mensagem estimula a nossa perspectiva cósmica enquanto espécie. Creio que o maior significado da placa da Pioneer 10 não é propriamente o facto de enviar uma mensagem ao exterior, mas ser também uma mensagem enviada a nós próprios.» (do livro Ligações Cósmicas).
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